Traço unário, ato analítico e entusiasmo

Traço unário em Jacques Lacan


Entusiasmo é o que amarra, num mesmo gesto,
a invenção de um sentido — pela incidência do Real —
e a responsabilidade do sujeito por essa invenção.

Jorge Forbes

O que faz com que um sujeito se constitua como este sujeito singular, e não outro? O que é determinante na sua diferença? A pergunta atravessa a psicanálise desde Freud, que a formulou no registro da identificação e da memória, ou seja, como o aparelho psíquico se inscreve, como um traço se retém, como o objeto perdido se substitui por uma marca.

Lacan, no Seminário 9, "A Identificação" (1961-62), aponta para a existência de um significante mínimo — ao qual ele dá o nome de traço unário — que marca o sujeito antes mesmo que o sujeito advenha. É a pedra fundadora da identificação, a qual o ato analítico deve tocar para que algo novo possa ser inaugurado.

Freud explorou a natureza da memória desde o início da sua obra, propondo que as experiências vividas pelo sujeito se inscrevem no aparelho psíquico como traços mnêmicos. Já no "Projeto de uma psicologia" (1895), a memória aparece como diferença de facilitações (Bahnung) entre neurônios — não um depósito de conteúdos, mas um sistema de diferenças. Na Carta 52 a Fliess (1896), o aparelho é descrito como estratificação de inscrições (Niederschriften) sujeitas a retranscrição. A metáfora do bloco mágico, em "Nota sobre o Bloco Mágico" (1925), coroa essa elaboração. A placa coberta por uma folha translúcida, onde marcas podem ser feitas e apagadas, indica a maneira pela qual a consciência registra experiências momentâneas, enquanto a camada de cera abaixo, que retém os traços dessas inscrições, alude ao inconsciente que guarda as memórias e experiências passadas. Mas a escrita retida na cera não se lê diretamente, só se recupera sob certa incidência de luz. O traço não é um conteúdo legível, mas uma marca cuja leitura depende de outra coisa.

Em "Psicologia das massas e análise do Eu" (1921), Freud distingue três modos de identificação: ao pai, ao desejo do outro (histérica) e um terceiro modo, particular: quando o objeto é perdido, o investimento a ele dirigido é substituído por uma identificação parcial, extremamente limitada, que conserva um traço único (einziger Zug) da pessoa objeto. É desse traço que Freud faz o núcleo do ideal do eu, o ponto de onde o sujeito se vê digno de amor. Esses traços, ou inscrições, não são simples recordações, mas representações que podem ser reativadas e mobilizadas em outros contextos, como nos sonhos e na transferência.

É essa terceira identificação que Lacan elege como fundadora. A tradução que propõe é, ela mesma, uma operação conceitual. Einziger Zug diz, literalmente, traço único. Lacan traduz por trait unaire, traço unário, não único. Do único ao unário, passa-se da qualidade ao número. Não se trata da unicidade de um traço distintivo do objeto, mas da função do 1 como diferença pura — o traço enquanto contável, suporte da repetição, da ordem da marca, o que o caçador entalha no osso, uma para cada presa: marcas qualitativamente idênticas e, no entanto, distintas, porque cada uma conta um.

Ao discutir como as ideias e os objetos são representados no inconsciente, Freud distingue ainda, em "O inconsciente" (1915), as representações de coisa (Sachvorstellung) das representações de palavra (Wortvorstellung): a representação consciente articula coisa e palavra; a inconsciente é representação de coisa apenas. É do mesmo solo metapsicológico que vem o representante da representação (Vorstellungsrepräsentanz) — o que da pulsão se inscreve no psiquismo —, que Lacan retomará insistentemente. É nesse terreno — o da inscrição psíquica como traço, da identificação como retenção de um único traço do objeto perdido, da representação como articulação entre coisa e palavra — que Lacan vai operar.

O traço unário é o significante mínimo, aquele pelo qual o sujeito vem a ser representado para outros significantes. Donde o aforismo, formulado em "Subversão do sujeito e dialética do desejo" (1960) e retrabalhado ao longo do Seminário 9, que condensa o primeiro ensino de Lacan: um significante é o que representa o sujeito para outro significante. O signo representa algo para alguém. O significante representa o sujeito para outro significante. O sujeito não é o destinatário da representação: é o representado, que desaparece sob aquilo que o representa.

Em Freud, há um aparelho que retém traços, uma superfície de inscrição pressuposta, a cera sob a folha translúcida. Em Lacan, o sujeito não preexiste à inscrição, é efeito dela. O traço unário não marca um sujeito que já estava lá, ele é a condição para que algo como um sujeito venha a se constituir. O traço unário é anterior ao sujeito. Não há sujeito sem o significante que o representa, e não há significante mínimo sem outro significante para o qual ele represente. O sujeito surge nesse intervalo, entre dois significantes, nunca em um só.

Para Lacan, se o objeto se reduz a um traço, é por intervenção do significante. O traço unário não é apenas o que subsiste do objeto perdido, mas também o que o apagou. É a lição que Lacan extrai, no Seminário 9, da pegada de Sexta-feira de Robinson Crusoé: a marca na areia é ainda índice de uma presença. O significante nasce quando o traço é apagado e algo vem marcar o lugar do apagamento, ou seja, traço do apagamento do traço. O traço unário marca, portanto, ao mesmo tempo, a inscrição e a perda. Daí sua articulação com a castração e com a fantasia.

A castração não é um evento, mas a operação pela qual o sujeito perde o gozo pleno e entra na ordem simbólica, e que se inscreve no corpo como o traço unário. A fantasia, por sua vez, é a montagem que o sujeito fabrica para sustentar seu desejo diante dessa perda estrutural, desse buraco. Os dois — castração e fantasia — se articulam ao traço unário porque é nele que o sujeito encontra, simultaneamente, a marca do que o constitui e a cicatriz do que o constituiu.

O traço unário é, nesse sentido, espinha dorsal do sujeito: o ponto a partir do qual sua história, seu desejo e seu sintoma se organizam.

A elaboração em torno desse conceito permite a Lacan articular como os significantes inscrevem o sujeito na ordem simbólica, mediando a relação do sujeito com o Outro e com o desejo. O traço unário marca o momento em que o sujeito é capturado pela rede de significantes — momento que Lacan, no Seminário 11, formalizará como alienação, primeiro tempo lógico da constituição subjetiva, ao qual responderá a separação. Se a alienação é o destino de todo ser falante, a separação indica que esse destino não é sentença: há um descolamento possível entre o sujeito e o significante que o petrificou.

É desse descolamento que se trata na clínica do real. No Seminário 15, "O ato psicanalítico" (1967-68), Lacan formaliza o que distingue o ato de toda ação: o ato não tem garantia no Outro. O analista que opera por seu ato age sem caução — sem um Outro do Outro que o autorize — e é dessa falta de garantia que sua intervenção tira força.

O que em 1967 Lacan colocava como condição do ato do analista, Jorge Forbes generaliza como condição de nossa época. Num mundo horizontalizado, que perdeu as referências verticais que distribuíam lugares e destinos, viver sem garantia deixou de ser ponto de chegada de uma análise e passou a ser ponto de partida de todos. Daí a sua proposta de inverter a direção da cura, não mais o tratamento do real pelo simbólico — a decifração, a busca da causa na história —, mas o tratamento do simbólico pelo real. Não se trata mais de ancorar significações, mas de fazer vacilar as ancoragens. O analista desloca os pontos de fixação do sujeito e abre a possibilidade de uma reconfiguração da cadeia significante. É a vacilação calculada que Lacan propõe em “Subversão do sujeito e dialética do desejo”, e da qual Forbes destaca uma modalidade de interpretação (de ato) que prescinde da palavra.

É no ato analítico — na poeticidade do gesto do analista — que algo da marca impressa pelo traço unário pode ser tocado. No nível do traço unário, a interpretação clássica — aquela que decifra um sentido oculto, que empresta sentido ao analisante — não basta. Forbes dá nome a essa insuficiência ao distinguir duas clínicas: na primeira, clínica do significante, o analista empresta sentido ao que diz o analisante. Cada fala remete a outra, e mais outra, e o dito parece sempre aquém do que ainda estaria por dizer. Na segunda, clínica do real, o analista empresta consequência ao que é dito — nada espera além do dito, e devolve ao analisante o peso do que ele próprio falou.

O traço unário, afinal, não tem sentido a ser decifrado, tem peso a ser deslocado, eco a ser ressoado. O analista não explica, implica o analisante, como diz Forbes. O trabalho analítico já não pode se apoiar na via da explicação, que busca a causa que esclarece, mas pede implicação, que confronta o sujeito com o encontro que desconcerta, com a causa vazia que exige invenção. Por isso o analista não traduz, não demonstra: mostra, aposta, com seu gesto — “encarnação imaginária do ato”— que a marca fundadora possa ser tocada de outro modo.

É uma operação mais próxima da poesia do que da exegese. Equívoco: a interpretação que o último Lacan aproxima do poema. Trata-se de implicar o ser falante no traço e na falta que o constituem, e que tocam seu corpo. Ao emprestar consequência, e não mais sentido, o analista não culpabiliza, mas responsabiliza, e o analisante passa a responder pelas consequências do que diz, e do que não é. O analista não decifra o traço, toca-o. E o traço que o ato toca no final de uma análise não é idêntico ao da entrada. É a sua reescritura: do traço que aliena ao traço que o sujeito assina.

É o que Forbes diz sobre assumir o próprio traço. Arriscá-lo sem garantia, sustentá-lo quando ele nos ultrapassa. Lacan, em 1977, chamou isso de um significante novo: “um significante que, como o real, não tivesse nenhum sentido”. A essa posição — a de quem responde pelo que inventa, sem muletas ou desculpas no inconsciente — Forbes dá o nome de entusiasmo, e nela reconhece a finalidade de uma psicanálise.

Trata-se do coroamento do triplo movimento exigido pelo laço social contemporâneo: inventar uma resposta ao real, responsabilizar-se por ela e, finalmente, levá-la ao mundo, num gesto ético de assinar a própria marca, despojada de justificativas, mas sustentada no risco de sua repercussão.

O analista do século XXI aposta que, do toque, do ressoar, uma nova série inaugurada no mundo como marca única.

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