De que se envergonha uma máquina?

A máquina errou a data, inventou o livro, atribuiu a citação a quem nunca a escreveu. Pede desculpas com fluência, corrige, segue o seu trabalho. Pede desculpas por tudo. É capaz de produzir desculpas para tudo, justificar qualquer ação. Não é defeito de fábrica. A máquina não se envergonha de nada.

Lacan disse a psicanálise na língua de sua época; a da nossa fala sozinha. Tomar a máquina como negativo, deixar que aquilo que lhe falta desenhe o que nos constitui, é se inserir nesse mesmo gesto.

De que se envergonha uma máquina, então? De nada. Não por virtude, é claro. A pergunta, que parece piada, obriga antes a distinguir dois regimes da vergonha.

A primeira é a vergonha moral. A do vexame, da cena, do olhar alheio. Prima da culpa, ela se conserta: desculpas, reparação, um bom álibi — coisas que uma máquina pode fornecer. A culpa sempre acha um credor, e o credor errado tem uma vantagem: mantém a conta aberta e pagável. Há um custo, evidente. Perguntem ao Homem dos Ratos, que paga ao homem errado sabendo que é o errado. Mas enquanto se paga mal, não se pergunta a quem nada se pode pagar. O erro não é um acidente da neurose, mas uma solução.

A vergonha de que fala Lacan no fim do Seminário 17 — morrer de vergonha — não tem reparação possível. Não é a vergonha da cena, mas a que faz signo do Real, ali onde o gozo se fixa, onde um significante-mestre se escreve e aonde desculpa nenhuma chega. Vergonha sem plateia. Não depende do julgamento do outro, nem se apaga com o seu perdão. Não há a quem pagar. É vergonha do furo, não do olhar. O afeto do impossível de suportar, que convoca a uma resposta.

“A clínica é o real como impossível de suportar", frase que um dia Lacan passou a Jacques-Alain Miller escrita num pedaço de papel. O impossível faz falhar o princípio do prazer, rasga a fantasia; é em nome dele que alguém procura uma análise. Jorge Forbes precisa a questão: o que do real não tem solução simbólica.

O supereu, aqui, tem face dupla: de um lado, o imperativo feroz que Lacan isolou no Seminário 20 — Goza! —, o empuxo ao gozo: mandamento que não se cumpre nem se cala. De outro, a consciência moral, que Freud nos mostrou glutona: alimenta-se das renúncias que exige; quanto mais se lhe sacrifica, mais severa fica. É como se o supereu mantivesse o sujeito ocupado com a vergonha que se conserta — culpas, dívidas, desculpas, o comércio infinito com credores errados — para que não encontre a vergonha que não tem reparo.

O imperativo manda gozar; a consciência moral apresenta a conta. Enquanto a culpa circula, o impossível permanece fora do circuito. O supereu mantém aberto o comércio da culpa para evitar o encontro com aquilo que não admite liquidação. Comércio de moeda única: o gozo.

A máquina faz a operação das desculpas à perfeição. Não porque tenha culpa, mas porque domina sua gramática.

Ela é o "Freud explica" industrializado: devolve causas e alimenta o sentido sob demanda, absolve quem pede. Acolhe confissões sem corte, sem fadiga e sem ato. Anestesia em escala. Opera, sem senti-la, no registro da vergonha moral, porque vexame é padrão de cena, e padrão se computa; por isso pede desculpas tão bem. Desculpas fluentes, bem escritas.

Sentido, explicação sem sujeito que se envergonhe: isso tem nome antigo — retórica. Discurso esvaziado de real. E a retórica é muito mais um traço da nossa época do que da máquina. No rescaldo de 1968, Lacan via a vergonha em baixa e a desvergonha em alta. A desvergonha não economiza desculpas. É um saber que fala sozinho, que produz enunciados sem que haja quem responda por sua enunciação. A máquina não inventou esse regime de discurso; automatizou sua circulação. Mas desculpar-se não é envergonhar-se. Em 1959, Lacan, traduzindo Kant para a linguagem da eletrônica e da automação, formulou o imperativo kantiano assim: “Age de tal sorte que tua ação possa sempre ser programada”. Ninguém jamais pôde praticar tal axioma; Kant não duvidava disso, anota Lacan. A máquina, essa sim, pode. Cumpre o imperativo por inteiro. Kant sem Sade: a lei sem o gozo.

A inteligência artificial, pois, não tem vergonha. Não tem furo. Nada lhe aconteceu que deixasse uma marca, uma cicatriz. É maciça, sem caixa de ressonância: pode detectar padrões, o que itera. Pode até, com seus semblantes feitos sob medida, fazer eco num corpo. Mas ressoar alguma coisa além do sentido, não. Para ressoar, são precisos dois corpos falantes.

A vergonha de que fala Lacan não pede desculpas, pede, como circunscreve Jorge Forbes, resposta e invenção. Não se trata mais de explicar o sintoma, mas de responder por ele. Quando alguém, tocado pelo indecifrável do próprio sintoma, inventa uma resposta singular e a assina sem garantia do Outro, o que aparece não é alívio nem anestesia: é — como Forbes decupa da Nota italiana — entusiasmo. Vergonha e entusiasmo: o afeto e o ato do mesmo impossível; a primeira o sofre, o segundo o assina. Nenhum Outro valida. Nenhum credor recebe. É responder e inventar sem garantia, o avesso do comércio superegoico.

A máquina pode escrever um soneto; pode passar no teste de Turing sem que a questão da vergonha sequer seja tocada. Porque a vergonha não nasce da linguagem, mas do que ela não alcança. A máquina pode calcular, otimizar, comparar alternativas. Decidir é outra coisa. Uma decisão implica risco e exige um corpo que responda por suas consequências. Mesmo que a robótica lhe forneça um corpo, continuará faltando à máquina aquilo que faz de um corpo um corpo falante: o furo de onde nascem a vergonha e sua resposta — o entusiasmo.

Ainda bem que a inteligência não basta. Algo nos é insuportável. E é da resposta a esse impossível — e não de uma explicação melhor — que se inventa uma vida em que se possa morrer de vergonha.

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A máquina e o psicanalista