O 'eu' como sintoma privilegiado: do sintoma ao sinthoma

Eu ideal e Ideal do eu em Jacques Lacan

O eu está estruturado exatamente como um sintoma.
No interior do sujeito, não é senão um sintoma privilegiado.
É o sintoma humano por excelência, é a doença mental do homem.

Jacques Lacan

Lacan não diz que o eu tem sintomas — diz que o eu é sintoma. E um sintoma privilegiado, sintoma humano por excelência. Trata-se do estatuto da consciência de si: aquilo que, na tradição filosófica, era o ponto de certeza (o ego cogito), e que Lacan situa como sendo aquilo que gera sofrimento e alienação. Para entender essa tese, é preciso distinguir eu de sujeito, e eu ideal de ideal do eu.

Há uma distinção que organiza o ensino lacaniano desde o início. O eu (moi, em francês) não é o sujeito (sujet). O eu é a instância imaginária, aquela que diz "eu sou", que se reconhece no espelho, que se identifica com a imagem invertida de si. O sujeito, em Lacan, é efeito da cadeia significante, o que advém entre dois significantes, e sempre dividido, nunca coincidente consigo mesmo. Quando alguém em análise diz "eu não sou assim", "eu nunca faria isso", "eu sou uma pessoa que…" — é o eu falando, não o sujeito. Não por acaso, essas frases têm a estrutura da denegação que Freud descreveu em "A negativa" (1925), texto que Lacan faz comentar por Jean Hyppolite no interior mesmo do Seminário 1: o "não" é a marca de que o eu fala exatamente onde o inconsciente desponta. O sujeito do inconsciente fala no que tropeça, nos lapsos, nos sonhos, nos sintomas — pontos em que o eu falha em sustentar sua imagem unitária.

Dizer que o eu é sintoma é destacar que essa instância pela qual o ser falante se reconhece como uma unidade coerente é, ela mesma, uma formação sintomática, feita de identificações alienantes, de imagens emprestadas, de ideais que vieram do Outro.

Os conceitos de eu ideal e ideal do eu são elaborados no Seminário 1 — sobretudo nas lições do esquema óptico e dos dois narcisismos, e a tese do eu como objeto, e não como instância de síntese, ocupará o ano inteiro do Seminário 2. A formulação canônica da distinção, porém, Lacan a dará em "Observação sobre o relatório de Daniel Lagache" (1960), no esquema dos dois espelhos: o ideal do eu como ponto simbólico, o eu ideal como formação imaginária.

A diferenciação se dá no contexto do "retorno a Freud", que marca a primeira clínica lacaniana. Essa distinção não está pronta em Freud. Em "Introdução ao narcisismo" (1914), Idealich e Ichideal aparecem de modo quase intercambiável, sem sistematização. O que Freud estabelece é que o ideal é o substituto do narcisismo perdido da infância, não querendo renunciar à perfeição narcísica de que gozou. Dela despertado pelas críticas parentais e do meio, o sujeito busca reconquistá-la sob a forma nova de um ideal. A separação conceitual entre as duas instâncias é elaboração pós-freudiana — Nunberg, depois Lagache —, e é Lacan quem lhe dá estatuto estrutural, distribuindo-as entre os registros: uma operação de leitura, não uma descoberta no texto. Na psicanálise lacaniana, como na freudiana, o narcisismo segue sendo elemento constituinte e estruturante, ancorado na forma como o sujeito se posiciona em relação ao outro — seja como imagem idealizada de si mesmo (eu ideal), seja na adoção de um ideal que vem do Outro (ideal do eu).

Lacan delineia o conceito de eu ideal em sua discussão sobre o estádio do espelho. Trata-se do momento de identificação do infans — aquele que ainda não fala — com a sua imagem unificada e idealizada de si mesmo. A criança, cujo corpo é vivido como sendo fragmentário, encontra na imagem refletida (no espelho ou no olhar do Outro) uma totalidade que ainda não experimenta internamente.

Essa identificação, crucial para a formação do eu, é também marcada pela alienação, uma vez que a imagem com a qual o eu se identifica é uma ilusão. No escrito de 1949 sobre o estádio do espelho, Lacan diz que a imagem antecipa para o sujeito, em miragem, a "forma ortopédica de sua totalidade": a ortopedia qualifica a forma, não o corpo. Orthos e paîs, endireitar a criança. Como uma muleta que dá sustentação a um corpo pulsional, despedaçado, que sem ela não se sustentaria. Essa imagem é o suporte da identificação primária da criança com o outro, constituindo o ponto inaugural da alienação do sujeito na captura imaginária.

O eu ideal não é, portanto, um eu plenamente saudável que o sujeito posteriormente perde. É, desde o início, ficção. Ficção necessária, estruturante. É a primeira mentira sobre si mesmo que o ser falante precisa contar para se constituir como tal.

O ideal do eu, por outro lado, refere-se à instância cuja função, no plano simbólico, é regular a estrutura imaginária do eu, as identificações e os conflitos que regem suas relações com o outro. Comporta os padrões, valores e ideais aos quais o sujeito aspira; é o ponto de referência contra o qual o sujeito mede seu próprio valor e suas realizações. Freud o aproxima por vezes do supereu, mas Lacan separa com nitidez crescente o que em Freud se funde: o ideal do eu pacifica, orienta, é ponto de identificação simbólica; o supereu é a lei insensata, o imperativo feroz que, longe de regular o desejo, comanda. São duas faces que convém não colar. E é em "Psicologia das massas e análise do Eu" (1921) que Freud indica do que o ideal do eu é feito: da identificação a um traço único (einziger Zug) do objeto — o traço unário, dirá Lacan, ponto de contato entre a teoria do eu e a teoria do sujeito.

Em Lacan, esse ponto se localiza no momento da entrada do sujeito na ordem simbólica, ou seja, quando o sujeito encontra a lei do Outro. O ideal do eu, desse modo, orienta o desejo do sujeito de uma forma que vai além do narcisismo do eu ideal, engajando-o com as estruturas sociais e simbólicas às quais está submetido.

A diferença pode ser formulada assim: o eu ideal é como o sujeito se vê (imagem); o ideal do eu é de onde o sujeito é visto (ponto simbólico). O primeiro é especular, é o sujeito olhando-se. O segundo é o lugar de um olhar que vem do Outro — o ponto de onde o sujeito se verá visto, dirá Lacan no Seminário 11 — e a partir do qual o sujeito se mede. O sujeito não sofre apenas pela imagem que tem de si (eu ideal), sofre, sobretudo, por estar sendo medido a partir de um ponto que ele mesmo não controla (ideal do eu).

E se o eu ideal é uma imagem alienante e o ideal do eu é uma medida que vem do Outro, o eu — instância em que essas duas operações se entrelaçam — é, estruturalmente, lugar de sofrimento. O eu é onde o sujeito se reconhece, mas é também onde ele é capturado por imagens que não lhe pertencem e por ideais que ele não escolheu. É por isso que Lacan o chama de sintoma privilegiado: é o sintoma do qual todos os outros sintomas dependem. A neurose é, em larga medida, a forma como cada sujeito tenta sustentar essa ficção do eu diante das fraturas que o real lhe impõe.

Quando alguém chega à análise dizendo "eu sou ansioso", "eu sou inseguro", "eu não consigo", está, ao mesmo tempo, descrevendo um sofrimento e reforçando o sintoma maior: a crença de que existe um eu coerente que possui qualidades. O trabalho analítico, na primeira clínica lacaniana, desloca o eu de sua posição de protagonista, abrindo espaço para que o sujeito do inconsciente possa advir.

Essa diferenciação fundamental tem ecos em desdobramentos posteriores do ensino lacaniano. No Seminário 23, Lacan explora as relações entre os registros Real, Simbólico e Imaginário por uma abordagem topológica — o nó borromeano. Pode-se ler, nessa chave, eu ideal e ideal do eu como formas de articulação entre as imagens narcísicas do eu (Imaginário), os ideais internalizados e as normas simbólicas (Simbólico), e o que resiste à simbolização no Real — corpo que está fora do alcance do significante, avesso da forma ortopédica e alienante do espelho: corpo pulsional, despedaçado, local de gozo, impossível de se fazer todo.

E é no Seminário 23 que o próprio Lacan dá o passo que autoriza essa releitura. Ao examinar Joyce, ele mostra que o eu pode ter função reparadora: em Joyce, é o eu que corrige o lapso do nó, que compensa a carência paterna e impede a dissolução dos registros — a escrita como suplência, o eu como sinthoma. Vinte e dois anos depois de chamar o eu de doença mental do homem, Lacan o revaloriza como aquilo que, em certos casos, mantém um mundo de pé. Há um movimento do eu-sintoma de 1954 ao eu-sinthoma de 1976.

A passagem da primeira para a segunda clínica traz consigo essa inflexão. Na primeira clínica, do Simbólico, o objetivo era libertar o sujeito da captura imaginária e da tirania do ideal do eu. Na segunda clínica, do real, a direção do tratamento se desloca para o sinthoma, o modo singular pelo qual cada sujeito amarra seus três registros e sustenta uma existência possível. Não se trata mais de dissolver o sintoma do eu, mas de fazer com que o sujeito possa fazer dele um saber-fazer próprio. O eu, sintoma privilegiado, deixa de ser apenas o que se atravessa para passar a ser, em alguma medida, aquilo com o que se inventa um novo modo de viver.

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