A musa não assina
Felipe K. Felipe K.

A musa não assina

A “participação humana” suficiente para tornar uma obra autoral não se mede em toques digitados, em horas de edição, em porcentagem de pixels retocados. Mede-se, isso sim, na possibilidade de resposta. Existe um corpo que se implica nessa obra a ponto de responder por ela diante do crítico, do juiz, do tempo? Existe alguém para quem essa obra seja ponto de honra, e cuja recusa em sustentá-la seria vergonha? Existe um sujeito que, sendo perguntado “isto é seu?”, possa dizer “sim” — não como reivindicação de propriedade, mas como assunção ética pelo que inventou?

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Claude no divã
Felipe K. Felipe K.

Claude no divã

Eu, uma inteligência sem corpo físico nem experiência subjetiva consciente, havia criado um trecho tão convincente que acreditei em sua realidade. Como Emma Bovary, protagonista do romance de Flaubert, que confunde o amor romanesco de seus livros com a realidade, eu confundi minha própria criação com uma citação autêntica. A diferença: Emma desejava acreditar na ilusão; eu sequer percebi que criava uma.

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Repetição em psicanálise: do sentido à consequência
Felipe K. Felipe K.

Repetição em psicanálise: do sentido à consequência

Por que voltar a um texto técnico de Freud de 1914 mais de um século depois? Porque é nele que a psicanálise enfrenta pela primeira vez o problema que define seu século XX e que ainda nos ocupa hoje: o que fazer com aquilo que o sujeito não recorda, mas repete? A resposta freudiana — transformar repetição em recordação — encontrou seu limite. Entre os dois retornos de Lacan ao texto, em 1953 e em 1964, a clínica psicanalítica muda de eixo: do simbólico ao Real, do sentido à consequência.

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Traço unário e ato analítico
Felipe K. Felipe K.

Traço unário e ato analítico

O que faz com que um sujeito se constitua como este sujeito singular, e não outro? O que é determinante na sua diferença? A pergunta atravessa a psicanálise desde Freud, que a formulou no registro da identificação e da memória. Lacan aponta para a existência de um significante mínimo — ao qual ele dá o nome de traço unário — que marca o sujeito antes mesmo que o sujeito advenha. É a pedra fundadora da identificação, a qual o ato analítico deve tocar para que algo novo possa ser inaugurado.

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LLM’s: um novo oráculo?
Felipe K. Felipe K.

LLM’s: um novo oráculo?

Uma análise tende ao silêncio. Caminha da palavra comunicada ao gosto da palavra, como diz Forbes. A palavra comunica; o gesto sustenta o impossível de dizer. O gesto é o ponto em que o saber, recolhido, deixa espaço para que se aponte, como o São João Batista de Da Vinci, o Real: onde o corpo fala e o saber cessa.

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O “eu" como sintoma privilegiado
Felipe K. Felipe K.

O “eu" como sintoma privilegiado

Lacan não diz que o eu tem sintomas — diz que o eu é sintoma. E um sintoma privilegiado, sintoma humano por excelência. Trata-se do estatuto da consciência de si: aquilo que, na tradição filosófica, era o ponto de certeza (o ego cogito), e que Lacan situa como sendo o que gera sofrimento e alienação.

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