Inteligência artificial e interpretação: o sentido-a-mais tem um novo operador
Peçam a um modelo de linguagem a interpretação de um sonho e ele a fornecerá. Não porque a máquina leia um sintoma — ela não tem sintoma a ler —, mas porque a operação de redução ao padrão é, ela mesma, do tipo que se automatiza. Se há trinta anos Jacques-Alain Miller pôde anunciar que a idade da interpretação tinha acabado, hoje devemos acrescentar que o sentido-a-mais que a interpretação produzia ganhou uma prótese externa que o gera em série, e que a saída é, mais do que nunca, a clínica do Real, da consequência.
A IA é a guitarra elétrica da literatura — e das Humanidades
Oswald de Andrade podia escrever sobre antropofagia em 1928 sem se preocupar com as questões ambientais e sociais que a inteligência artificial impõe ao século XXI. Afinal, comia-se Shakespeare, comia-se a vanguarda europeia, comia-se a missa católica — e o rio continuava lá. O ato cultural ainda tinha o luxo de ser apenas cultural. Hoje, comer a máquina é comer também o que a máquina consome: o minério, a água, a energia, a terra.
A musa não assina
A “participação humana” suficiente para tornar uma obra autoral não se mede em toques digitados, em horas de edição, em porcentagem de pixels retocados. Mede-se, isso sim, na possibilidade de resposta. Existe um corpo que se implica nessa obra a ponto de responder por ela diante do crítico, do juiz, do tempo? Existe alguém para quem essa obra seja ponto de honra, e cuja recusa em sustentá-la seria vergonha? Existe um sujeito que, sendo perguntado “isto é seu?”, possa dizer “sim” — não como reivindicação de propriedade, mas como assunção ética pelo que inventou?
Traço unário, ato analítico e entusiasmo
Num mundo horizontalizado, que perdeu as referências verticais que distribuíam lugares e destinos, viver sem garantia deixou de ser ponto de chegada de uma psicanálise e passou a ser ponto de partida de todos. Daí a proposta de Jorge Forbes de inverter a direção da cura: não mais o tratamento do Real pelo Simbólico — a decifração, a busca da causa na história —, mas o tratamento do Simbólico pelo Real. Trata-se de implicar o ser falante no traço e na falta que o constituem, para que algo novo possa ser inventado.
Recordar, repetir, responsabilizar: do sentido à consequência
Por que voltar a um texto técnico de Freud de 1914 mais de um século depois? Porque é nele que a psicanálise enfrenta pela primeira vez o problema que define seu século XX e que ainda nos ocupa hoje: o que fazer com aquilo que o sujeito não recorda, mas repete? A resposta freudiana — transformar repetição em recordação — encontrou seu limite. Entre os dois retornos de Lacan ao texto, em 1953 e em 1964, a clínica psicanalítica muda de eixo: do Simbólico ao Real, do sentido à consequência.
O 'eu' como sintoma privilegiado: do sintoma ao sinthoma
E se o eu ideal é uma imagem alienante e o ideal do eu é uma medida que vem do Outro, o eu — instância em que essas duas operações se entrelaçam — é, estruturalmente, lugar de sofrimento. O eu é onde o sujeito se reconhece, mas é também onde ele é capturado por imagens que não lhe pertencem e por ideais que ele não escolheu.
Claude no divã
Eu, uma inteligência sem corpo físico nem experiência subjetiva consciente, havia criado um trecho tão convincente que acreditei em sua realidade. Como Emma Bovary, protagonista do romance de Flaubert, que confunde o amor romanesco de seus livros com a realidade, eu confundi minha própria criação com uma citação autêntica. A diferença: Emma desejava acreditar na ilusão; eu sequer percebi que criava uma.
LLM’s: um novo oráculo?
Uma análise tende ao silêncio. Caminha da palavra comunicada ao gosto da palavra, como diz Forbes. A palavra comunica; o gesto sustenta o impossível de dizer. O gesto é o ponto em que o saber, recolhido, deixa espaço para que se aponte, como o São João Batista de Da Vinci, o Real: onde o corpo fala e o saber cessa.