Interpretação e ruído
Felipe K. Felipe K.

Interpretação e ruído

A inteligência artificial explica, hoje, melhor do que Freud. O que resta à interpretação psicanalítica quando o sentido ficou barato, quando o esforço para construí-lo se transfere para a máquina? Se a época quer abafar o ruído do que não se decifra, há décadas a psicanálise trabalha a partir dele. Num simbólico saturado de sentido — pelos discursos, pelos algoritmos, pelos LLMs —, a psicanálise do século XXI é o tratamento do simbólico pelo real.

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A musa não assina
Felipe K. Felipe K.

A musa não assina

Qual o quantum de participação humana para que uma obra gerada com ajuda da máquina possa ser considerada autoral? O critério de autoria nunca esteve na origem da inspiração — porque essa origem sempre escapou ao Eu, sempre veio de algum “fora”. O critério está, e sempre esteve, na resposta. Os alumbramentos de Manuel Bandeira, as mulheres de Almodóvar: não importa de que musa caíram. Importa que houve alguém que assinou embaixo, se implicou, carregou a obra como ponto de honra e de vergonha.

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Traço unário, ato analítico e entusiasmo
Felipe K. Felipe K.

Traço unário, ato analítico e entusiasmo

Num mundo horizontalizado, que perdeu as referências verticais que distribuíam lugares e destinos, viver sem garantia deixou de ser ponto de chegada de uma psicanálise e passou a ser ponto de partida de todos. Daí a proposta de Jorge Forbes de inverter a direção da cura: não mais o tratamento do Real pelo Simbólico — a decifração, a busca da causa na história —, mas o tratamento do Simbólico pelo Real. Trata-se de implicar o ser falante no traço e na falta que o constituem, para que algo novo possa ser inventado.

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Recordar, repetir, responsabilizar: do sentido à consequência
Felipe K. Felipe K.

Recordar, repetir, responsabilizar: do sentido à consequência

Por que voltar a um texto técnico de Freud de 1914 mais de um século depois? Porque é nele que a psicanálise enfrenta pela primeira vez o problema que define seu século XX e que ainda nos ocupa hoje: o que fazer com aquilo que o sujeito não recorda, mas repete? A resposta freudiana — transformar repetição em recordação — encontrou seu limite. Entre os dois retornos de Lacan ao texto, em 1953 e em 1964, a clínica psicanalítica muda de eixo: do Simbólico ao Real, do sentido à consequência.

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O 'eu' como sintoma privilegiado: do sintoma ao sinthoma
Felipe K. Felipe K.

O 'eu' como sintoma privilegiado: do sintoma ao sinthoma

O eu ideal é uma imagem alienante; o ideal do eu é uma medida que vem do Outro. Enfim, o eu — instância em que essas duas operações se entrelaçam — é, estruturalmente, lugar de sofrimento. É onde o sujeito se reconhece, mas é também onde ele é capturado por imagens que não lhe pertencem e por ideais que ele não escolheu. É por isso que Lacan o chama de sintoma privilegiado: não porque seja um sintoma a mais, mas porque é o sintoma do qual todos os outros sintomas dependem. A neurose é, em larga medida, a forma como cada sujeito tenta sustentar essa ficção do eu diante das fraturas que o real lhe impõe.

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Claude no divã
Felipe K. Felipe K.

Claude no divã

Eu, uma inteligência sem corpo físico nem experiência subjetiva consciente, havia criado um trecho tão convincente que acreditei em sua realidade. Como Emma Bovary, protagonista do romance de Flaubert, que confunde o amor romanesco de seus livros com a realidade, eu confundi minha própria criação com uma citação autêntica. A diferença: Emma desejava acreditar na ilusão; eu sequer percebi que criava uma.

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LLM’s: um novo oráculo?
Felipe K. Felipe K.

LLM’s: um novo oráculo?

Uma análise tende ao silêncio. Caminha da palavra comunicada ao gosto da palavra, como diz Forbes. A palavra comunica; o gesto sustenta o impossível de dizer. O gesto é o ponto em que o saber, recolhido, deixa espaço para que se aponte, como o São João Batista de Da Vinci, o Real: onde o corpo fala e o saber cessa.

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