Recordar, repetir, responsabilizar: do sentido à consequência
Tiquê e automaton na psicanálise de Jacques Lacan
Recordar, repetir e elaborar. Por que voltar a um texto técnico de Freud de 1914 mais de um século depois? Porque é nele que a psicanálise enfrenta pela primeira vez o problema que define seu século XX e que nos ocupa até hoje: o que fazer com aquilo que o sujeito não recorda, mas repete? A resposta freudiana — transformar repetição em recordação — encontrou cedo seu limite. Lacan retornará a esse texto duas vezes, em 1953 e em 1964. Entre os dois retornos, a clínica psicanalítica muda de eixo: do simbólico ao real, do sentido à consequência.
Em 1914, Freud formulou o eixo em torno do qual a técnica psicanalítica se organiza: quando o sujeito não consegue recordar o que está recalcado, ele repete em ato aquilo que é esquecido. A própria ordem dos termos no título narra o problema. A meta é recordar, a repetição é o que comparece no lugar da lembrança, e a elaboração é o terceiro tempo, o do trabalho. A repetição, assim, não é uma falha de rememoração, mas o modo pelo qual o que não pode ser lembrado se manifesta. O trabalho da análise, naquele momento, era o que podia transformar essa repetição — lembrança atuada — em material de elaboração simbólica.
Lacan retorna a esse texto freudiano fundacional em dois momentos do seu ensino. No Seminário 1, destaca a função constituinte da palavra em uma análise que não restitui o passado, mas o reescreve. No Seminário 11, a questão é: há dois registros da repetição — tiquê e automaton — e um deles excede qualquer possibilidade de reescrita retroativa do passado.
O texto de Freud começa narrando uma história de deslocamentos técnicos no campo psicanalítico. No início, sob a égide da catarse hipnótica, recordar e ab-reagir eram a meta. O paciente revivia a cena traumática e, uma vez acessada a memória sob hipnose, o sintoma cedia. Com o abandono da hipnose, passou-se a reunir, pela associação livre, o que o sujeito se recusava a recordar por meio do trabalho das resistênciasdo recalcado. Na terceira fase, a que o texto de 1914 dá forma, o analista renuncia a focalizar um momento ou um problema determinado, contenta-se em estudar a superfície atual do material e usa a interpretação, sobretudo, para reconhecer as resistências. O sujeito não recorda, mas atua em transferência, repete na situação analítica, na relação com o analista, sem saber que o faz. O trabalho passa a ser o trabalho das resistências, não mais a visada de uma memória específica.
A consequência clínica é que a condição patológica não cessa com o início da análise. Afinal, ela é um poder atual, não algo que se deu no passado. A resposta técnica de Freud é abrir a transferência como campo de exercício onde a compulsão de repetição pode se desdobrar com liberdade. Freud o chama de Tummelplatz, pátio de recreio: um espaço intermediário entre a doença e a vida. A neurose ordinária se transformar em neurose de transferência, mais acessível à intervenção. A repetição é, assim, redirecionada e se torna meio para o recordar, para a cura da amnésia infantil.
Freud destaca ainda um terceiro tempo, crucial nesse processo: a elaboração. É o que distingue a psicanálise das terapêuticas sugestivas. Nomear a resistência não produz seu cessamento, pois é preciso dar tempo ao sujeito para se engajar com ela, para vencê-la pelo trabalho e não pela compreensão que uma interpretação do analista possa oferecer. Embora Freud já deixe antever as limitações desse caminho terapêutico, a meta permanece clara em 1914: transformar a repetição em recordação.
Seis anos depois, em 1920, Freud escreve "Além do princípio do prazer". E a repetição muda de estatuto. A compulsão de repetição ganha autonomia da memória. Ela é uma força bruta, autônoma.
Lacan, no Seminário 1, toma o texto de 1914 a partir de uma questão ontológica: o que é a história do sujeito? A resposta é que a história não é o passado, mas o passado na medida em que é historiado no presente. A restituição da história não é recuperação de um passado que esperava pronto para ser encontrado, é construção retroativa. O significante que só aparece agora, depois, constitui o passado que ele nomeia.
Nesse momento do seu ensino, a distinção fundamental que Lacan faz é entre palavra plena e palavra vazia — par que nasce em "Função e campo da fala e da linguagem" (1953), contemporâneo do seminário. A palavra plena realiza a verdade do sujeito: reordena as contingências passadas dando-lhes o sentido das necessidades por vir. Faz ato. A palavra vazia é aquela em que o sujeito se perde nas maquinações da linguagem, usando-a como relação ao outro em vez de revelação de si. A resistência é o momento em que a palavra bascula da plena para a vazia, em que o sujeito, incapaz de continuar em direção à verdade do seu desejo, se agarra à relação imaginária com o analista como apoio.
O elaborar freudiano é lido aqui como o processo pelo qual a palavra vazia cede lugar à palavra plena. Não é um trabalho emocional, mas simbólico. O que Freud produziu no caso do Homem dos Lobos não foi reviver o afetivo, mas a reconstrução direta da história do sujeito. A repetição do sonho infantil não era uma memória bloqueada — amnésia infantil — mas algo que nunca pôde ser dito. Lido retroativamente, com o vocabulário que Lacan só terá dez anos depois, era já um circundar o real sem alcançá-lo. A análise interveio pela palavra que nomeou retroativamente o que estava mudo.
O Seminário 1 resolve a tensão de 1914 no registro do Simbólico: a repetição é material para a reescrita da história. A transferência é onde essa repetição se encena. A elaboração é o tempo necessário para que a palavra plena emerja. Mas esse horizonte alcança um limite que o Seminário 1 ainda não nomeia com precisão, e que Lacan desenvolverá dez anos depois.
Em 1964, no Seminário 11, Lacan convoca novamente "Recordar, repetir e elaborar" para denunciar o que de mais estúpido se fundou, na psicanálise, sobre a leitura desse texto: a identificação de repetição com transferência, e de transferência com reprodução de história, perdendo de vista o que o texto já continha de mais radical. Há algo na repetição que excede qualquer história.
Lacan reapropria dois termos da Física de Aristóteles, avisando que os emprega para além do uso aristotélico, em que tiquê é o acaso nos assuntos humanos e automaton, o acaso em geral. O automaton é a repetição na cadeia significante, a estrutura mesma da rede que comanda os retornos, como uma carta forçada. É governado pela lei do significante. É o que o primeiro ensino já conhecia — e que o Seminário 2 e o "Seminário sobre 'A carta roubada'" (1955) formalizam como insistência da cadeia: o sujeito repete porque a cadeia que o constitui insiste, porque o passado não simbolizado pressiona para emergir como ação. Já a tiquê é o encontro com o real — o encontro como faltoso, como o que pode falhar e sempre, em alguma medida, falha. Não é uma forma de repetição, mas o que a repetição circunda sem alcançar. É o real que está por trás do automaton, que a tela simbólica nunca recobre completamente.
Em 1914, a compulsão de repetição era obstáculo à rememoração. Em 1920, em "Além do princípio do prazer", Freud encontra algo que esse modelo não explica. As neuroses traumáticas repetem o trauma sem ganho de prazer, sem história a recuperar, sem resistência que, uma vez vencida, liberaria a memória. Lacan lê esse segundo momento como a descoberta da tiquê: o real que a simbolização não fecha, que nenhuma elaboração pode alcançar.
O sonho do pai que vigia o filho morto ilustra essa distinção. O que desperta o pai não é o ruído da vela que tomba no quarto ao lado, mas a voz da criança no sonho: "Pai, não vês que estou queimando?" Há mais realidade nessa voz do que no acontecimento perceptível. O real não está do lado do dado na percepção, mas do lado do que escapa. A tiquê é sempre o encontro que nunca se dá completamente, que deixa como rastro o encontro que não ocorreu como deveria.
O Homem dos Lobos, aliás, atravessa os dois retornos de Lacan — e a diferença entre as duas leituras mede o caminho percorrido. No Seminário 1, o caso ilustrava o poder da palavra que nomeia retroativamente o que estava mudo. No Seminário 11, Lacan volta a ele pelo avesso: interroga a insistência de Freud em descobrir o encontro primeiro, o real por trás da fantasia — e chega a perguntar se esse desejo de Freud, esse empenho em desvelar o que estava velado, não teria contribuído para o desencadeamento da psicose do paciente. O mesmo caso que demonstrava o alcance da reescrita simbólica passa a advertir sobre o risco de forçar o encontro com o que não se inscreve.
A consequência para a compreensão da transferência é importante. Para Lacan, o conceito de repetição não se confunde com o de transferência. É, na verdade, a confusão que ele denuncia. No Seminário 11, a transferência é definida como atualização da realidade do inconsciente: conceito distinto da repetição, ainda que os dois se enlacem. A transferência mobiliza o registro do automaton — a história, os significantes que retornam diante do analista —, mas não se reduz a ele. A tiquê é o que nem a transferência captura, pois é o que ela circunda. Daí decorre uma consequência clínica: o modelo freudiano de 1914 não pode, por nenhum recurso técnico, redirecionar a tiquê para o automaton. A tiquê resiste à reescrita.
Pode-se dizer que, enquanto o Seminário 1 resolve a tensão de Freud no registro do Simbólico — a repetição como material para a reescrita retroativa da história —, o Seminário 11 mantém a tensão aberta, apontando que há um registro da repetição, a tiquê, que excede qualquer possibilidade de sentido. O texto de 1914 já continha os dois registros sem distingui-los. A compulsão de repetição aparecia como fenômeno unitário, ainda que Freud pressentisse sua irredutibilidade ao modelo da rememoração. Foi necessária sua elaboração em 1920 para que a divisão se tornasse explícita. E o ensino de Lacan para que ela ganhasse formulação conceitual precisa.
A elaboração, iluminada pelos dois seminários de Lacan, tem alcance e limite distintos. Sobre o automaton, ela opera no sentido de fazer com que a resistência possa ser vencida, a história reconstituída, a palavra plena possa emergir da vazia. Sobre a tiquê, não há essa possibilidade. O real que não cessa de retornar ao mesmo lugar não é reelaborável no sentido freudiano. O que a análise pode fazer com a tiquê não é elaborá-la, mas mudar a posição do sujeito em relação a ela. O que Lacan elabora, no Seminário 23, como o savoir-faire de Joyce — a arte como suplência — e formula, no Seminário 24, como savoir y faire: saber-fazer-com o que não tem solução simbólica.
A essa mudança de posição, Jorge Forbes dá um nome tomado de Lacan: o desabonamento do inconsciente. Uma análise se encaminha para que o inconsciente não sirva mais de desculpa. O que era "foi inconsciente" torna-se responsabilidade. O sujeito desabonado do inconsciente não é aquele que se tornou consciente de tudo, mas aquele que não pode mais usar o não-saber como escusa. O inconsciente continua operando, o que muda é a posição do sujeito em relação a ele.
Essa distinção separa as duas clínicas lacanianas. A primeira opera sobre o autômaton pela interpretação e pela reelaboração. Nas palavras de Forbes, o analista empresta sentido ao analisante. É a clínica do significante. A segunda opera sobre a tiquê pelo ato analítico. Ato que o Seminário 11 deixa no horizonte do debate sobre a repetição, como problema que a clínica da rememoração não resolve.
É a leitura que Forbes formaliza em sua tese, Inconsciente e responsabilidade: a partição tiquê/automaton é também uma partição da responsabilidade. O automaton é o inconsciente-desculpa — legível, decifrável, "aquele que qualquer um entende" — e que funciona, na vida do sujeito, como justificativa: "só se foi o meu inconsciente". No vocabulário jurídico que Forbes mobiliza, uma vis maior, força maior que exclui a imputação. A tiquê, ao contrário, é um cerne sem conteúdos legíveis, sem verdades interpretáveis — radicalmente estranho, mesmo sendo íntimo —, e justamente por isso não deixa ao sujeito outra opção senão responsabilizar-se. Tratar o inconsciente como automaton é desresponsabilizar. Reconhecer a tiquê é o ponto em que a responsabilização psicanalítica se torna possível. Por isso a passagem da primeira à segunda clínica não é, nas palavras de Forbes, um pequeno ajuste ou uma continuidade, mas uma mudança paradigmática.
Freud, em 1914, queria transformar o ato em recordação, reter no âmbito psíquico o que o sujeito queria descarregar pela ação. Lacan faz o caminho inverso: o ato analítico — que não é a atuação do analisando, mas a intervenção do analista que incide sobre o real — será desenvolvido nos anos seguintes do seu ensino como a resposta técnica ao que a tiquê exige. É a pedra angular da clínica do Real que se inaugura: onde o analista, retomando a fórmula de Forbes, empresta consequência ao analisante, não mais sentido.
Essa distinção define a clínica psicanalítica do século XXI. No diagnóstico de Forbes, a aceleração do mundo, a saturação simbólica e a dissolução das antigas referências tornam o segundo registro, o da tiquê e da consequência, não mais exceção, mas regra. A clínica do significante, que emprestava sentido a sintomas legíveis na história do sujeito, encontra hoje um sujeito atravessado por encontros que não se inscrevem em nenhuma história prévia. Não há mais o que reescrever. Há que se responsabilizar, inventar uma solução singular e sustentá-la no mundo. E a bússola lacaniana dessa decisão, Forbes a encontra em "A ciência e a verdade" (1965): "por nossa posição de sujeito, sempre somos responsáveis". Sempre — não conforme a intenção, o conhecimento ou qualquer outra variável; nem mesmo, e sobretudo, diante do que não se sabe de si. É para esse sujeito que o segundo retorno de Lacan ao Freud de 1914 oferece sua chave: não interpretar, mas operar; não restituir o sentido, mas sustentar a consequência.
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FORBES, J. Inconsciente e responsabilidade: psicanálise do século XXI. Barueri: Manole, 2012.
FORBES, J. "Para uma nova psicanálise". Conferência de encerramento do Curso da TerraDois. São Paulo, 5 dez. 2025
FREUD, S. "Recordar, repetir e elaborar (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise II)" (1914). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, vol. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
FREUD, S. "História de uma neurose infantil" (1918 [1914]). In: ESB, vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
FREUD, S. "Além do princípio do prazer" (1920). In: ESB, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
LACAN, J. "Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise" (1953); "O seminário sobre 'A carta roubada'" (1955); "A ciência e a verdade" (1965). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, J. O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-54). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.
LACAN, J. O Seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-55). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
LACAN, J. O Seminário, livro 15: O ato psicanalítico (1967-68). Inédito.
LACAN, J. O Seminário, livro 23: O sinthoma (1975-76). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
LACAN, J. O Seminário, livro 24: L'insu que sait de l'une-bévue s'aile à mourre (1976-77). Inédito.