A IA é a guitarra elétrica da literatura — e das Humanidades
Por que a IA não é o fim da autoria humana. E por que isso não é desculpa para entregá-la às big techs.
Em julho de 1967, Elis Regina, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Gilberto Gil e cerca de duzentos artistas marcharam em São Paulo em protesto contra a guitarra elétrica. Três meses depois, no III Festival da Record, o mesmo Gil subiu ao palco com Os Mutantes para tocar "Domingo no Parque"; Caetano Veloso, com os argentinos do Beat Boys, tocou "Alegria, Alegria". O tropicalismo, que nascia ali, incorporava o que no Largo São Francisco se queria expurgar.
Hoje ninguém mais defende (ou quem se importa com quem defende?) que "Domingo no Parque" ou "Alegria, Alegria" sejam menos brasileiras por terem guitarra elétrica. O que Caetano fez, com Gil, com Tom Zé, com Gal, com os Mutantes, não foi aceitar a guitarra. Foi deglutir a guitarra. Foi fazer com ela uma coisa que os Beatles não fariam, que Dylan não faria, que ninguém faria a não ser quem estava ali, naquele país, naquele momento, com aquela tradição. A guitarra elétrica entrou no Brasil, foi deglutida, e saiu outra coisa.
Corre o ano da graça de 2026, sessenta anos se passaram, e vemos uma nova passeata. Nas diretrizes de grandes estúdios do audiovisual proibindo "geração autônoma de personagens centrais", nas editoras que recolhem livros suspeitos de terem sido escritos com IA, nas universidades que tipificam o uso de ChatGPT como fraude acadêmica, nas redes sociais questionando a autoria de uma Nobel de Literatura, como Olga Tokarczuk.
O instrumento estrangeiro de acordes dissonantes agora é o grande modelo de linguagem. Mas o medo não será da mesma estirpe? Que a alma humana, brasileira, seja contaminada pela maquinaria imperialista? Que algo de essencial se perca quando o texto passa por um caminho que não é aquele há muito cartografado pelas Humanidades?
O tropicalismo foi a antropofagia da música. Só me interessa o que não é meu. Caetano comeu todo mundo: Beatles e Dylan, Roberto Carlos e a Jovem Guarda, comeu Carmen Miranda e o bolero — e nos deu a Tropicália. Gil comeu o blues e o samba para fazer "Aquele Abraço". Tom Zé comeu Vila-Lobos, John Cage, Stockhausen e o jingle publicitário para fazer Estudando o Samba.
Há uma diferença, no entanto, entre a guitarra elétrica e os grandes modelos de linguagem. A guitarra elétrica de Caetano não secava rios. O LLM da OpenAI, sim.
Nos Estados Unidos, segundo a Agência Internacional de Energia, os datacenters consumirão até 2030 mais eletricidade do que toda a indústria pesada — alumínio, aço, cimento, química — somada. E não é só energia: estima-se que o consumo anual de água de um único modelo, o GPT-4o, possa exceder a necessidade de água potável de doze milhões de pessoas. O custo é material, ambiental, social — e incontornável.
Oswald de Andrade podia escrever sobre antropofagia em 1928 sem se preocupar com essas questões. Comia-se Shakespeare, comia-se a vanguarda europeia, comia-se a missa católica, e o rio continuava lá. O ato cultural ainda tinha o luxo de ser apenas cultural. Hoje, comer a máquina é comer também o que a máquina consome: o minério, a água, a energia, a terra.
O artista antropófago de hoje se pergunta o que está usando, de onde veio, e quem paga a conta.
É evidente que não basta dizer "abracem a máquina como abraçaram a guitarra". Caetano abraçou a guitarra contra a indústria fonográfica, não junto com ela. A minoria em 1967 era a do tropicalismo experimental contra a defesa-da-verdadeira-MPB sustentada por interesses estabelecidos. Hoje, a minoria é a do escritor humano contra as corporações trilionárias que treinaram seus modelos com obras alheias sem permissão e que agora extraem trabalho cognitivo de todos os cantos do mundo a preço de subsídio energético.
Confundir "ser pró-IA" com "ser pró-Big Tech" é o erro que mata o debate, e toda a arte.
Perguntem a IA se o Tom Zé realmente fez propaganda pra Coca-Cola.
Antropofagia, no século XXI, exige soberania técnica. Comer a máquina sem ser engolido pela infraestrutura que a sustenta. Sem depender de um ator geopolítico instável que detenha a tecnologia.
O tropicalismo não foi um movimento de afirmação da guitarra elétrica. Não se tratava de aceitar ou rejeitar o instrumento, mas do que se podia inventar com ele. A questão, hoje, não é ser contra ou a favor da IA. Mas perguntar: qual IA? Pra quê? Pra quem?
A inspiração, agora, gostemos ou não, também é elétrica. Mas continua precisando ser alimentada e trabalhada por mãos que respondem pelo que ela consome, em corpos que sentem, decidem e se responsabilizam pelo que a máquina vai tocar.
Caetano e companhia não nos disseram para abraçarmos a indústria fonográfica. Disseram para tocarmos guitarra.
Seguiremos tocando.