Interpretação e ruído

Há um novo operador do sentido-a-mais no mundo. Vivemos numa época em que a palavra está inflacionada, em que se fala e se escreve sem cessar e se multiplicam as tentativas de eliminar o equívoco, domesticar o mal-entendido e eliminar o ruído. Algo que a inteligência artificial generativa tornou impossível de ignorar. Gerar sentido por cálculo estatístico e aparar o que excede o cálculo é o que faz um grande modelo de linguagem. Ele produz sentido para tudo, e devolve ao falante uma justificativa pré-moldada para qualquer gesto.

O que resta à interpretação psicanalítica quando o sentido ficou barato, quando o esforço para construí-lo se transfere para a máquina? A psicanálise já produziu, nos últimos trinta anos, respostas ao esgotamento da interpretação clássica. É a passagem da primeira para a segunda clínica de Jacques Lacan. Da clínica do significante para a clínica do real.

A primeira clínica é a do sentido-a-mais. É a operação que Forbes descreve como emprestar sentido: na clínica do significante, cada fala remete a outra, e mais outra, e o dito parece sempre aquém do que ainda estaria por dizer. Esse era o trabalho artesanal do analista da primeira clínica: abrir o leque das significações, fazer a cadeia deslizar, revelar que sob o dito há sempre mais a dizer; que o saber de si se acumula, e quanto mais, melhor.

Ora, esse trabalho foi industrializado. Peçam a um modelo de linguagem a interpretação de um sonho e ele a fornecerá, fluente, plausível, inesgotável. É claro que ele não interpreta no sentido em que um sujeito interpreta, ele projeta a próxima palavra provável. Mas o efeito, na superfície, é o de um emprestador universal de sentido, disponível, incansável, e que, como mostra Forbes ao opor a associação livre à linguagem dos LLMs, quando fala, fecha: encadeia, reconcilia, harmoniza, dá acabamento. Se há trinta anos Jacques-Alain Miller pôde anunciar que a idade da interpretação tinha acabado, hoje devemos acrescentar que o sentido-a-mais que a interpretação produzia ganhou uma prótese externa que o gera em série.

Miller parte de uma constatação que inverte a posição do analista. Em "A interpretação pelo avesso" — comunicação de 1995 cujo título anunciado era, aliás, "A interpretação está morta, não a ressuscitaremos" —, Miller estabelece que o inconsciente é o verdadeiro intérprete. É ele que decifra, que faz alusão, que produz o equívoco, que conecta um significante a outro para extrair sentido. O analista que acrescenta sentido apenas faz o que o inconsciente já faz. O inconsciente que interpreta, lembra Miller, tem "estrutura de delírio (…) diz-se bem: o delírio de interpretação". Interpretar a serviço do sentido é nutrir o delírio quando se trata de esfomeá-lo. A prática que Lacan continuou chamando de interpretação "nada mais tem a ver com o sistema da interpretação, e sim com seu avesso". Trata-se de reconduzir o sujeito ao significante propriamente elementar, "insensato", com que delirou. O corte no lugar da pontuação. A sessão a-semântica no lugar da sessão que faz sentido. "Se houver aqui decifração", escreve Miller, "é uma decifração que não produz sentido".

Miller propôs pensar a clínica como saber ler. "O bem dizer na psicanálise não é nada sem o saber ler." A psicanálise é escuta e leitura. Ela opera na distância entre falar e escrever. Ler um sintoma é desinvesti-lo do sentido, cernir nele o que itera fora de qualquer sentido: a letra, não a mensagem. O operador dessa saída é, pois, formal: ler, reduzir, decifrar às avessas. O alvo é a fórmula do gozo, o S₁ sozinho. E o nome interpretação é conservado, ainda que invertido em seu contrário.

Essa segunda clínica, Forbes a circunscreve a partir de uma inversão da fórmula lacaniana: se a psicanálise foi o tratamento do real pelo simbólico, hoje, num simbólico saturado de sentido — pelos discursos, pelos algoritmos, pelos LLMs —, ela se torna o tratamento do simbólico pelo real. Forbes enfatiza nela a responsabilidade: "a interpretação, o sentido a mais, leva ao saber; o ato, o gesto, leva à responsabilidade". A formulação é a seguinte: se na primeira clínica o analista empresta sentido, na segunda ele empresta consequência ao que é dito — "no emprestar consequência, o analista não espera nada além do dito".

Passa-se, desse modo, da clínica do sentido-a-mais para a clínica do real, da consequência.

O operador-chave dessa clínica deixa de ser o escutar ou o ler e passa a ser o inventar e responder ao ruído daquilo que não é sinal e não se decifra. Onde Miller pergunta o que se lê e como, Forbes pergunta quem responde e perante quem. Devolve à pessoa o peso do que ela própria falou. "O saber irresponsabiliza de certo modo o sujeito", diz Forbes, como o saber de que uma tosse é causada por um vírus alivia o paciente. Quem sabe a causa se desculpa por ela.

A tese de Forbes em Inconsciente e responsabilidade coloca o inconsciente como cadeia que se decifra. O automaton funciona como uma desculpa, no sentido que o direito chama de vis maior, força maior que exclui a imputação. Mas há um outro registro, o da tiquê, o encontro faltoso com o real, um cerne sem conteúdos legíveis e justamente por isso não decifrável — e que, por não oferecer sentido a desculpar, não deixa ao sujeito outra opção senão responsabilizar-se. A ressonância lacaniana encontra-se em "A ciência e a verdade": "por nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis". Sempre. Não conforme a intenção, o saber, ou qualquer variável. Nem mesmo, e sobretudo, diante do que não se sabe de si.

O fim de análise, nessa clínica, não tem por afeto a resignação de quem aceita o vazio que o determina, mas o entusiasmo, que junta a invenção de um sentido singular — pela incidência do real — e a responsabilidade do sujeito por essa invenção. O termo também ressoa em Lacan, para quem, sem entusiasmo, "pode ter havido análise, mas analista, nenhuma chance". Desabonado do inconsciente, sem alguém que garanta um saber, o sujeito não se deprime: inventa, se responsabiliza por sua invenção, colocando-a no mundo. A responsabilidade, em Forbes, não é o fardo de quem tem de responder, uma condenação à liberdade, mas o entusiasmo de quem inventa uma resposta singular ao que não tem, e não pode ter, nome.

Forbes dá, pois, uma forma ética frente ao impossível a suportar — ao que do real não se deixa simbolizar. Forma ética que é fato clínico, porque implicar o sujeito no que diz, responsabilizá-lo pelo que nele não se decifra, é, na clínica da consequência, o que opera, o que desfaz a fixação e abre a invenção, ali onde emprestar sentido só produziria mais sentido. A ética, na psicanálise, não é um adendo moral ao bisturi do cirurgião: é o próprio bisturi.

Aqui, o nome interpretação é abandonado e fica reservado à primeira clínica. Cede lugar, na segunda, ao ato e ao gesto.

A operação que Miller descreve — reduzir o sentido ao que itera, cernir o padrão que insiste sob o dito, extrair o S₁ que se repete — descreve, num plano formal, o que a máquina também faz, ao seu modo. O aprendizado estatístico é, afinal, redução de um corpus imenso ao que nele se repete, extração de regularidades sob a superfície do sentido.

Lacan definiu uma língua como "a integral dos equívocos que sua história deixou persistirem nela". Um grande modelo de linguagem é quase a materialização técnica dessa definição. Os LLMs foram, literalmente, treinados sobre essa integral. São, como diz Forbes, um condensado do Outro da linguagem, espelho do "se diz", que não associa, continua. Têm a língua, toda ela, tabulada. Falta-lhes lalíngua, a mesma língua, mas no ponto em que ela marca um corpo. O equívoco, aqui, está estatisticamente domesticado. A iteração, sem gozo. A marca, sem ninguém que sofra dela. A máquina detecta os padrões, mas não é tocada por eles: é insusceptível de vergonha. É por isso que o duplo maquínico da leitura não invalida a via de Miller. No plano formal, porém — de detectar, reduzir, fazer aparecer o que se repete —, a vantagem comparativa do analista sobre a máquina parece encolher. Não porque a máquina leia um sintoma — ela não tem sintoma a ler —, mas porque a operação de redução ao padrão é, ela mesma, do tipo que se automatiza.

A consequência que o analista empresta não tem duplo maquínico. A consequência exige um corpo marcado. O sentido, não. Por isso a consequência é, por estrutura e não por atraso tecnológico, inautomatizável: pode-se delegar a produção de sentido, pode-se até delegar, até certo ponto, a detecção do padrão que itera. Mas não se pode delegar a vergonha, a honra, a assinatura. Não há como terceirizar o responder por.

Podemos dizer que a leitura é a condição e a consequência é a prova. Diante do sentido-a-mais industrializado, ler de outro modo continua sendo o que livra a interpretação de alimentar o delírio. Mas o que a máquina não pode fazer no lugar do analista é levar o sujeito a responder pelo que inventa.

Se o último ensino de Lacan aponta para um significante novo — “um significante que, como o real, não tivesse nenhum sentido” —, e se a interpretação em seu avesso é o que “faz soar outra coisa que não o sentido”, então o que está em jogo na clínica não é mais o sentido, mas o ruído: o indecifrável, e o que se faz com isso. A máquina produz sentido em silêncio. É surda ao ruído daquilo que não é sinal — e ao barulho da língua —, que pedem um corpo que os sustente, que lhes dê consequência. Entre a fala e a escrita, o sentido e a consequência, há o ponto em que algo não fecha e alguém, depois, responderá por isso. A psicanálise não concorre com a máquina. Ela trabalha, como diz Forbes, onde a máquina emperra: no corpo que se implica, se envergonha, e honra o que assina.

REFERÊNCIAS

CARVALHO, Talyta. "Notas sobre a emergência de uma nova psicanálise". Ensaio sobre o Curso da TerraDois de Jorge Forbes. Maio 2025. Disponível em: ipla.com.br/conteudos/artigos/notas-sobre-a-emergencia-de-uma-nova-psicanalise.

FORBES, Jorge. Inconsciente e responsabilidade: psicanálise do século XXI. Barueri: Manole, 2012.

FORBES, Jorge. Da palavra ao gesto do analista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

FORBES, Jorge. "Psicanálise e IA não falam a mesma língua". Novembro 2025. Disponível em: jorgeforbes.com.br/psicanalise-e-ia-nao-falam-a-mesma-lingua.

LACAN, Jacques. "A ciência e a verdade" (1965). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

LACAN, Jacques. "L'étourdit" (1972). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

LACAN, Jacques. "Nota italiana" (1973). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

LACAN, Jacques. "Rumo a um significante novo" (lição do Seminário 24, 1977). Opção Lacaniana, n. 22. São Paulo: Eólia, ago. 1998, p. 10.

MILLER, Jacques-Alain. "A interpretação pelo avesso" (1995). Opção Lacaniana, n. 15. São Paulo, 1996, p. 96-99.

MILLER, Jacques-Alain. “Ler um sintoma” (Londres, 2011). Disponível em: ebp.org.br/sp/ler-um-sintoma.

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