A máquina e o psicanalista

A máquina pode ecoar num corpo humano. Ressoar, não.

O Freud explica está para se aposentar. A inteligência artificial, se não explica, explicará tudo, em breve. Peça a um modelo de linguagem a interpretação de um sonho e ele a entrega na hora. Pergunte por que você fez o que fez, e ele devolve uma justificativa pronta, personalizada. Nunca foi tão barato ter razão.

Houve um tempo em que isso era, em parte, o trabalho da psicanálise. O analista procurava o sentido oculto, abria o leque das interpretações, mostrava que sob cada palavra havia sempre mais a dizer. Esse trabalho, agora, foi industrializado. A máquina é, hoje, a melhor produtora de sentido que já existiu.

Mas faz tempo que a psicanálise não se ocupa disso.

Os grandes modelos de linguagem são máquinas de encadear; fazem qualquer argumento parecer defensável, polido, bem escrito. É a retórica em seu ápice, um discurso cheio de sentido e esvaziado de real. Um mundo de aparências bem costuradas. A psicanálise faz outra coisa. Descostura o discurso: não acrescenta sentido, devolve à pessoa o peso do que ela disse. Inclusive, e sobretudo, o peso daquilo que ela não sabe de si mesma.

Quando alguém se justifica a partir dos seus traumas, dos seus pais, do seu diagnóstico psiquiátrico, o alívio vem: a causa está do lado de fora. O saber desculpa. A máquina é a forma acabada disso, um oráculo que devolve a causa e absolve. Um analista não absolve ninguém. Ele faz a pessoa responder pelo que inventa a partir daquilo que, em cada um, não tem explicação.

Aqui alguém poderia objetar: mas a máquina detecta padrões melhor do que ninguém, e detectar o que se repete em alguém não é, no fundo, o que o analista faz? Em parte, sim. A inteligência artificial é uma máquina extraordinária de extrair e prolongar padrões: pega um oceano de palavras e devolve o que nele se repete. Nisso ela é imbatível. Só que detectar que algo se repete não é o mesmo que reconhecer que aquela repetição é um modo único — irreproduzível — de sofrer e se satisfazer ao mesmo tempo.

A máquina vai até a borda do que é compreensível e, frente ao desconhecido, deixa a pessoa ali, pendurada. Ela não trabalha com o aberto; seu trabalho é fechar, mesmo quando amplia, pois não suporta as consequências do que abre.

O que falta à máquina é um corpo. E não um corpo qualquer, que a robótica promete suprir: um corpo que tenha passado pela vergonha. A vergonha de que se ocupa a psicanálise não é a do vexame, a do olhar dos outros, que se conserta com um pedido de desculpas, mas a vergonha diante do que em nós não se decifra, do que não tem nome. Essa vergonha não está dada no começo; é a análise que a circunscreve. E quando alguém, chegando lá, em vez de paralisar, inventa uma resposta singular e a coloca no mundo, surge o que Jorge Forbes chama de entusiasmo.

No fim do seu ensino, Lacan disse que a interpretação que importa não produz nenhum sentido — ela faz ressoar outra coisa. E essa outra coisa, disse ele, é a ressonância de um corpo. O ruído é isto. O que não é sinal, o que não se decodifica, o que vibra num corpo e não se deixa traduzir, porque não carrega nenhuma mensagem.

Uma análise implica dois corpos. Um que se envergonha, no qual se faz ouvir o que a palavra não alcança. E outro que, já tendo passado por uma análise, é capaz de fazer ressoar o impossível de dizer.

A máquina produz sentido em silêncio. Não tem ruído a emitir. Nela, tudo fecha. Ela não tem corda com que ressoar.

Por isso, a psicanálise não disputa com a inteligência artificial. Trabalha em outro registro, onde a máquina emperra: no corpo que se envergonha — e que assina o que inventa diante do impossível.

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Interpretação e ruído