Tiquê e automaton: repetição em Freud e Lacan
Em Repetir, recordar, reelaborar (1914), Freud formulou o eixo em torno do qual a técnica psicanalítica se organiza: quando o sujeito não consegue recordar o que está recalcado, ele repete em ato aquilo que é esquecido. A repetição, assim, não é uma falha de rememoração, mas o modo pelo qual o que não pode ser lembrado se manifesta. O trabalho da análise, naquele momento, era o que podia transformar essa repetição — lembrança atuada — em material de elaboração simbólica.
Lacan retorna a esse texto freudiano fundacional em dois momentos do seu ensino. No Seminário I (1953–54), destaca a função constituinte da palavra em uma análise que não restituiu o passado, mas o reescreve. No Seminário XI (1964), a questão colocada é a que há dois registros da repetição, tiquê e automaton, e um deles excede qualquer possibilidade de reescrita, a partir do presente, do passado.
O texto de Freud começa narrando uma história de deslocamentos técnicos no campo psicanalítico. No início, sob a égide da catarse hipnótica, recordar e ab-reagir eram a meta: a pessoa revivia a cena traumática e, uma vez acessada a memória sob hipnose, o sintoma cedia. Com o abandono da hipnose, passou-se a reunir, pela associação livre, o que a pessoa se recusava a recordar por meio do trabalho das resistências do recalcado. Com a técnica de atenção flutuante proposta em 1914, o fenômeno central passa a ser que o sujeito não recorda, mas atua em transferência, repete na situação analítica, na relação com o analista, sem saber que o faz. O trabalho passa a ser o trabalho das resistências, não mais visando uma memória específica.
A consequência clínica é que a condição patológica não cessa com o início da análise, afinal, ela é um poder atual e não algo que se deu num tempo passado. A resposta técnica de Freud é abrir a transferência como campo de exercício onde a compulsão de repetição pode se desdobrar com liberdade, e a neurose ordinária se transformar em neurose de transferência, mais acessível a intervenção. A repetição é, assim, redirecionada e se torna meio para o recordar, para a cura da amnésia infantil.
Freud destaca ainda um terceiro tempo, crucial nesse processo: a elaboração, o que distingue a psicanálise das terapêuticas sugestivas. Nomear a resistência não produz seu cessamento, pois é preciso dar tempo ao sujeito para se engajar com ela, para vencê-la pelo trabalho e não pela compreensão que uma interpretação do analista possa oferecer. Embora Freud já deixe antever as limitações desse caminho terapêutico, a meta permanece clara em 1914: transformar a repetição em recordação.
Seis anos depois, em 1920, Freud escreve Além do princípio do prazer. E a repetição muda de estatuto. A compulsão de repetição ganha autonomia da memória. É uma força bruta, autônoma.
Lacan, no Seminário I, lê o texto de 1914 a partir de uma questão ontológica: o que é a história do sujeito? A resposta é que a história não é o passado, mas o passado na medida em que é historiado no presente. A restituição da história não é recuperação de um passado que esperava pronto para ser encontrado, é uma construção retroativa. O significante que só aparece agora, depois, constitui o passado que ele nomeia.
Nesse momento do seu ensino, a distinção fundamental que Lacan faz é entre palavra plena e palavra vazia. A palavra plena realiza a verdade do sujeito. Faz ato, transforma os dois em presença. A palavra vazia é aquela em que o sujeito se perde nas maquinações da linguagem, usando-a como relação ao outro em vez de revelação de si. A resistência é o momento em que a palavra bascula da plena para a vazia, ou seja, em que o sujeito, incapaz de continuar em direção à verdade do seu desejo, se agarra na relação imaginária do analista como apoio.
O elaborar freudiano é lido aqui como o processo pelo qual a palavra vazia cede lugar à palavra plena. Não é trabalho um emocional, mas imbólico. O que Freud produziu no caso do Homem dos Lobo não foi reviver o afetivo, mas a reconstrução direta da história do sujeito. A repetição do sonho infantil não era uma memória bloqueada, amnésia infantil, mas algo que nunca pôde ser dito, algo que circundou o real sem no entanto alcançá-lo. A análise interveio pela palavra que nomeou retroativamente o que estava mudo.
O Seminário I resolve a tensão de 1914 no registro do simbólico, uma vez que a repetição é material para a reescrita da história. A transferência é onde essa repetição se encena. A elaboração é o tempo necessário para que a palavra plena emerja. Mas esse horizonte alcança um limite que o Seminário I ainda não nomeia com precisão, e que Lacan desenvolverá dez anos depois.
Em 1964, no Seminário XI, Lacan convoca novamente Recordar, Repetir, reelaborar para qualificá-lo como o texto sobre o qual se fundou, na psicanálise, a maior estupidez. A estupidez foi identificar repetição com transferência e transferência com reprodução de história, perdendo de vista o que o texto já continha de mais radical: há algo na repetição que excede qualquer história.
Lacan reapropria dois termos da Física de Aristóteles. O automaton é a repetição na cadeia significante, a estrutura mesma da rede que comanda os retornos, como uma carta forçada. É governado pela lei do significante. É o que o Seminário I já conhecia: o sujeito repete porque a cadeia que o constitui insiste, porque o passado não simbolizado pressiona para emergir como ação. Já a tiquê é o encontro com o real, o encontro enquanto que podendo faltar, enquanto que essencialmente é encontro faltoso. Não é uma forma de repetição, mas o que a repetição circunda sem alcançar. É o real que está por trás do automaton, que a tela simbólica nunca recobre completamente.
Em 1914, a compulsão de repetição era obstáculo à rememoração. Em 1920, em Além do princípio do prazer, Freud encontra algo que esse modelo não explica. As neuroses traumáticas repetem o trauma sem ganho de prazer, sem história a recuperar, sem resistência que, umas vez vencida, liberaria a memória. Lacan lê esse segundo momento como a descoberta da tiquê, como o real que a simbolização não fecha, que elaboração alguma pode esgotar.
O sonho do pai que vigia o filho morto ilustra essa distinção. O que desperta o pai não é o ruído da vela que tomba no quarto ao lado, mas a voz da criança no sonho: — Pai, não vês que estou queimando? Há mais realidade nessa voz do que no acidente perceptível. O real não está do lado do dado na percepção, mas do lado do que escapa. A tiquê é sempre o encontro que nunca se dá completamente, que deixa como rastro o encontro que não ocorreu como deveria.
A consequência para a transferência é direta. Para Lacan, o conceito de repetição nada tem a ver com o de transferência. A transferência encena o automaton, a repetição da história do sujeito diante do analista, enquanto a tiquê não se deixa capturar pela transferência. Afinal, ela é o que a transferência circunda. E a não-comutatividade entre rememoração e repetição implica que o modelo freudiano de 1914 não pode simplesmente redirecionar a tiquê para o automaton por nenhuma sequência técnica.
Podemos dizer que enquanto o Seminário I resolve a tensão de Freud no registro do simbólico, a repetição como material para a reescrita retroativa da história, o Seminário XI mantém a tensão aberta, apontando que há um registro da repetição, a tiquê, que excede qualquer possibilidade de reescrita. O texto de 1914 já continha os dois registros sem distingui-los. A compulsão de repetição aparecia como fenômeno unitário, ainda que Freud pressentisse sua irredutibilidade ao modelo da rememoração. Foi necessário sua elaboração em 1920 para que a divisão se tornasse explícita. E o ensino de Lacan para que ela ganhasse formulação conceitual precisa.
A elaboração, iluminada pelos dois seminários de Lacan, assim, tem alcance e limite distintos. Sobre o automaton, ela opera no sentido de fazer com que a resistência possa ser vencida, a história reconstituída, a palavra plena possa emergir da vazia. Sobre a tiquê, não há essa possibilidade. O real que não cessa de retornar ao mesmo lugar não é reelaborável no sentido freudiano. O que a análise pode fazer com a tiquê não é elabora-la, mas mudar a posição do sujeito em relação a ela. O que Lacan chamará, no Seminário XXIII, de savoir y faire, saber-fazer-com o que não tem solução simbólica.
Essa distinção separa as duas clínicas lacanianas. A primeira opera sobre o automaton pela interpretação e pela reelaboração. Nas palavras de Jorge Forbes, o analista empresta sentido ao analisaste. É a clínica do simbólico. A segunda opera sobre a tiquê pelo ato analítico, que Lacan anota no Seminário XI com um ponto de interrogação. Ato, em maiúsculas, como horizonte do debate sobre a repetição.
Freud, em 1914, queria transformar o ato em recordação, reter no âmbito psíquico o que o sujeito quereria descarregar pela ação. Lacan, no Seminário XI, deixa o ato no horizonte como problema não resolvido pela clínica da rememoração. O ato analítico, que não é a atuação do analisando, mas a intervenção do analista que incide sobre o real, será desenvolvido por Lacan nos anos seguintes do seu ensino como a resposta técnica ao que a tiquê exige. É a pedra angular da clínica do Real que se inaugura, onde o analista empresta consequência, não mais sentido.
REFERÊNCIAS:
FORBES, Jorge. Inconsciente e responsabilidade: psicanalise do seculo XXI. Barueri: Manole, 2013.
Freud, Sigmund. Erinnern, Wiederholen und Durcharbeiten (1914). Tradução espanhola: Recordar, repetir y reelaborar. In: Obras Completas, Amorrortu Editores.Freud, Sigmund. Jenseits des Lustprinzips (1920). Tradução: Além do princípio do prazer. In: Obras Completas. Amorrortu Editores.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11 Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, 1953-1954.. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.