O “eu" como sintoma privilegiado
O eu está estruturado exatamente como um sintoma.
No interior do sujeito, não é senão um sintoma privilegiado.
É o sintoma humano por excelência, é a doença mental do homem.
— Jacques Lacan
Lacan não diz que o eu tem sintomas — diz que o eu é sintoma. E um sintoma privilegiado, sintoma humano por excelência. Trata-se do estatuto da consciência de si: aquilo que, na tradição filosófica, era o ponto de certeza (o ego cogito), e que Lacan situa como sendo aquilo que gera sofrimento e alienação. Para entender essa tese, é preciso distinguir eu de sujeito, e eu ideal de ideal do eu.
Há uma distinção que organiza todo o ensino lacaniano. O eu (*moi*, em francês) não é o sujeito (*sujet*). O eu é a instância imaginária, aquela que diz "eu sou", que se reconhece no espelho, que se identifica com a imagem invertida de si. O sujeito, em Lacan, é efeito da cadeia significante, o que advém entre dois significantes, e sempre dividido, nunca coincidente consigo mesmo. Quando alguém em análise diz "eu não sou assim", "eu nunca faria isso", "eu sou uma pessoa que…" — é o eu falando, não o sujeito. O sujeito do inconsciente fala no que tropeça, nos lapsos, nos sonhos, nos sintomas. Pontos em que o eu falha em sustentar sua imagem unitária.
Dizer que o eu é sintoma não significa que o sujeito é doente, mas que a instância pela qual o ser falante se reconhece como uma unidade coerente é, ela mesma, uma formação sintomática, feita de identificações alienantes, de imagens emprestadas, de ideais que vieram do Outro.
Os conceitos de eu ideal e ideal do eu estão localizados no início do ensino lacaniano, articulados principalmente na aula de 13 de janeiro de 1954, no contexto do Seminário 1, "Os escritos técnicos de Freud" (1953-54). Nesse seminário, Lacan explora a dinâmica do narcisismo e a formação do eu, discutindo como a imagem do corpo se constitui pelo estádio do espelho em uma instância do eu ideal, e como o ideal do eu se articula à instauração do supereu e à entrada do sujeito no campo do Outro.
A diferenciação empreendida por Lacan se dá no contexto do seu "retorno a Freud", que marca a primeira clínica lacaniana. Os conceitos freudianos retomados estão localizados dentro da teoria do narcisismo (especialmente em "Introdução ao narcisismo", de 1914) e da estruturação do supereu. Na psicanálise lacaniana, assim como na freudiana, o narcisismo é compreendido como elemento constituinte e estruturante, fundamentalmente ancorado na forma como o sujeito se posiciona em relação ao outro — seja como imagem idealizada de si mesmo (eu ideal), seja na adoção de um ideal que vem do Outro (ideal do eu).
O ideal do eu surge primeiramente em Freud como substituto do eu ideal: influenciadas pelas críticas parentais e do meio exterior, as primeiras satisfações narcísicas buscadas pelo eu ideal são progressivamente abandonadas, e é sob a forma desse novo ideal do eu que o sujeito tenta reconquistá-las. Lacan reinterpreta essa sucessão dentro de sua abordagem estrutural, enfatizando o papel do campo simbólico na constituição do sujeito.
Lacan delineia, assim, o conceito de eu ideal em sua discussão sobre o estádio do espelho. Trata-se do momento de identificação do infans — aquele que ainda não fala — com a sua imagem unificada e idealizada de si mesmo. A criança, cujo corpo é vivido como sendo fragmentário, encontra na imagem refletida (no espelho ou no olhar do Outro) uma totalidade que ainda não experimenta internamente.
Essa identificação, crucial para a formação do eu, é também marcada pela alienação — uma vez que a imagem com a qual o eu se identifica é uma ilusão. É a imagem de si invertida no espelho, uma "totalidade ortopédica" do corpo fragmentado, pulsional. Lacan insiste nesse termo, ortopédica: como uma muleta que dá sustentação a um corpo que, sem ela, não se sustentaria. Essa imagem é o suporte da identificação primária da criança com o outro, constituindo o ponto inaugural da alienação do sujeito na captura imaginária.
O eu ideal não é, portanto, um eu plenamente saudável que o sujeito posteriormente perde. É, desde o início, ficção. Ficção necessária, estruturante. É a primeira mentira sobre si mesmo que o ser falante precisa contar para se constituir como tal.
O ideal do eu, por outro lado, refere-se à instância cuja função, no plano simbólico, é regular a estrutura imaginária do eu, as identificações e os conflitos que regem suas relações com o outro. Está relacionado ao registro simbólico e à função do supereu. Comporta os padrões, valores morais e ideais aos quais o sujeito aspira. É o ponto de referência contra o qual o sujeito mede seu próprio valor e suas realizações.
Em Lacan, esse ponto se localiza no momento da entrada do sujeito na ordem simbólica, ou seja, quando o sujeito encontra a lei do Outro. O ideal do eu, desse modo, orienta o desejo do sujeito de uma forma que vai além do narcisismo do eu ideal, engajando-o com as estruturas sociais e simbólicas às quais está submetido.
A diferença pode ser formulada assim: o eu ideal é como o sujeito se vê (imagem); o ideal do eu é de onde o sujeito é visto (ponto simbólico). O primeiro é especular, é o sujeito olhando-se. O segundo é o lugar de um olhar que vem do Outro, e a partir do qual o sujeito se mede. Há uma topologia muito precisa nessa distinção, e ela tem consequências clínicas: o sujeito não sofre apenas pela imagem que tem de si (eu ideal), sofre, sobretudo, por estar sendo medido a partir de um ponto que ele mesmo não controla (ideal do eu).
E se o eu ideal é uma imagem alienante e o ideal do eu é uma medida que vem do Outro, o eu — instância em que essas duas operações se entrelaçam — é, estruturalmente, lugar de sofrimento. O eu é onde o sujeito se reconhece, mas é também onde ele é capturado por imagens que não lhe pertencem e por ideais que ele não escolheu. É por isso que Lacan o chama de sintoma privilegiado: não porque seja um sintoma a mais, mas porque é o sintoma do qual todos os outros sintomas dependem. A neurose é, em larga medida, a forma como cada sujeito tenta sustentar essa ficção do eu diante das fraturas que o Real lhe impõe.
Quando alguém chega à análise dizendo "eu sou ansioso", "eu sou inseguro", "eu não consigo", está, ao mesmo tempo, descrevendo um sofrimento e reforçando o sintoma maior: a crença de que existe um eu coerente que possui qualidades. O trabalho analítico, na primeira clínica lacaniano, desloca o eu de sua posição de protagonista, abrindo espaço para que o sujeito do inconsciente possa advir.
Essa diferenciação fundamental tem ecos em desdobramentos posteriores do ensino lacaniano. No Seminário 23, "O Sinthoma" (1975-76), Lacan explora as relações entre os registros Real, Simbólico e Imaginário por uma abordagem topológica — o nó borromeano. Eu ideal e ideal do eu se reconfiguram aí como formas de articulação entre as imagens narcísicas do eu (Imaginário), os ideais internalizados e as normas simbólicas (Simbólico), e o que resiste à simbolização no Real — corpo que está fora do alcance do significante, avesso da imagem ortopédica totalizante e alienante do espelho: corpo pulsional, despedaçado, local de gozo, impossível de se fazer todo.
A passagem da primeira para a segunda clínica traz consigo uma inflexão. Na primeira clínica, do Simbólico, o objetivo era libertar o sujeito da captura imaginária e da tirania do ideal do eu. Na segunda clínica, do Real, a direção do tratamento se desloca para o sinthoma — modo singular pelo qual cada sujeito amarra seus três registros e sustenta uma existência possível. Não se trata mais de dissolver o sintoma do eu, mas de fazer com que o sujeito possa fazer dele um saber-fazer próprio. O eu, sintoma privilegiado, deixa de ser apenas o que se atravessa para passar a ser, em alguma medida, aquilo com o que se inventa um modo de viver.
REFERÊNCIAS:
CHEMAMA, Roland. Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916) Obras completas volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
JODEAU-BELLE, Laetitial OTTAVI, Laurent. Les fondamentaux de la psychanalyse lacanienne, repères épistémologiques, conceptuels et cliniques. Rennes: Presses universitaires de Rennes, 2010.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23 O sinthoma, 1975-76. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 1 Os escritos técnicos de Freud, 1953-54. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.